
Tempo atrás, quando enfim comecei a conseguir falar, ainda muito timidamente, do que já havia sofrido, ouvi uma frase que me chocou. Mais que isso, me feriu bem no estômago, como se uma espada me atravessasse. Me disseram assim: “É que agora você está entendendo que era seu merecimento”.
Eu, que estava finalmente conseguindo destravar, travei de novo, me bloqueei. Na minha mente vozes femininas, no entanto, gritavam o tempo todo questionando:
“Como assim era seu merecimento? Como assim você merecia sofrer as mais terríveis violências desde a sua infância? Que argumento insensato é esse que tenta te convencer que a culpa dos atos violentos contra ti praticados é culpa tua?”.
Levou um tempo até eu voltar a me desbloquear, mas eu consegui. Eis-me aqui falando sobre o tema. Meu corpo, claro, ainda reage a isso. Treme, o estômago dói. Só que agora a dor já não me domina mais.
E, mais do que falar sobre o assunto, eu tenho certeza absoluta: Violência não é carma! Assim mesmo, com essa frase que me traz à realidade e à verdade do que ensina a Doutrina Espírita, e que está sendo exposta desde o início do mês numa campanha encabeçada pelo Centro Espírita O Consolador (CEC), localizado no bairro Ernesto Geisel, em João Pessoa.
Acesse @oconsoladorjpa e veja a campanha completa.
Violência não é carma.
Na campanha, além de esclarecer sobre as mais diversas formas de violência contra a mulher, o CEC nos faz compreender, à luz do Espiritismo, o verdadeiro sentido de estarmos aqui no plano da matéria, e que o motivo não é, nem de longe, sofrer agressão de quem quer que seja.
Em palestra recente, realizada no Núcleo de Estudos Espíritas Bom Samaritano, eu coloquei a necessidade de se falar do assunto em locais como os centros espíritas. Apresentei três argumentos. Poderia ter levado mais de mil, mas não daria tempo.
O primeiro deles são os números aterrorizantes. De acordo com dados do Atlas de Violência, em 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio. Isso representa 4,7% mais casos que em 2024. O estudo revela que 66,3% dos crimes ocorreram dentro de casa.
De 2021 a 2024, segundo a mesma fonte, foram 5.729 casos, e todos apontam um padrão recorrente: 59,4% das vítimas foram mortas pelo companheiro, 21,3% pelo ex-companheiro.
São apenas alguns poucos números. Tem muitos outros.
Meu segundo argumento para fortalecer a necessidade de se falar sobre temas sociais como esse nas casas espíritas foi a pergunta 932 de O Livro dos Espíritos:
Por que, na Terra, a influência dos maus é maior que a influência dos bons?
A resposta dos Espíritos é simples, objetiva e direta, como requer uma boa comunicação: “Isso ocorre porque os bons são fracos e tímidos, enquanto que os maus são intrigantes e audaciosos. Quando os bons quiserem, eles assumirão o controle”.
A pergunta 642 do mesmo livro uma verdade que precisa ser exposta o tempo todo:
Basta não praticar o mal para agradar a Deus e assegurar um futuro melhor?
“Não; é necessário fazer o bem no limite das próprias forças, pois cada um responderá por todo o mal que seja resultado do bem que não praticou”.
O que isso quer dizer?
Quando nos calamos, fechamos nossos olhos e fingimos que esse tipo de questão social só existe lá fora dos portões de nossas casas, estamos silenciando a voz do bem. A omissão contribui para a prática e o fortalecimento do mal. Portanto, precisamos sim erguer nossa voz, arregaçar as mangas e fazer algo que intimide o mal, até que ele fique tão sufocado que deixe de existir.
Por último, mas não menos importante, argumentei que há mais mulheres vítimas de violência convivendo com a gente do que a gente imagina, e é preciso falar sobre isso em todos os lugares para esclarecê-las e protegê-las.
Um exemplo prático? Eu já dei no começo do texto. Eu mesma!
Agora, ressignificando a dor através dessa campanha, muitas são as vozes na minha cabeça que tentam me impedir de continuar. Mas, a resposta vem da minha ancestralidade:
“E quando eu estiver queimando na fogueira da nova inquisição, todos ouvirão meu grito: Ao menos eu não fui omissa. Fiz todo o bem que pude e intimidei o mal!”.


