João Pessoa: 27 de janeiro de 2026

Pela janela do quarto

Publicado em: 11 de novembro de 2025

pela janela do quarto

Da janela do meu quarto observo o vai e vem das pessoas. Algumas passam apressadas, devem estar ansiosas para chegar em casa e descansar. Há, também, mães voltando das escolas com seus lindos filhos, uns tão novinhos são desconhecedores da história recente de uma tragédia ainda muito viva na memória dos que conseguiram sobreviver.

Não tem muito tempo, pela mesma janela do quarto eu contemplava o silêncio de uma avenida vazia, sem carros a transitar, ou amigos a papear ligeiramente ladeados por um encontro casual de vizinhos que quase nunca conseguem se encontrar.

Reflito: Nossa, eu sobrevivi! Encho meus pulmões de ar, como a homenagear aqueles que partiram sem a dádiva de conseguir respirar, ato tão contínuo e desprestigiado por todos nós. Alguma vez eu paro para prestar atenção na ação de inspirar e expirar?

O fiz poucas vezes nas crônicas crises de ansiedade que por muito tempo levaram-me ao ‘faticídio’ da imobilidade do corpo, num momento derivado da pintura de mitologia denominada de ‘Faticida’, de Frederic Leighton, que capta um momento congelado no tempo de uma mulher.

Por dois anos foi realmente assim que nos sentimos, congelados no tempo. Os dias passavam sem a pressa das conquistas efêmeras ofertadas pela vida igualmente passageira. Obviamente, não posso esquecer a citação dos que, ao contrário da maioria, corriam muito nas unidades de saúde, desde as mais pequenas até as gigantescas, em um objetivo uníssono, salvar o máximo de vidas possíveis.

Não é estranho como às vezes parece que a pandemia da Covid-19 nem existiu? Quem fala dela, a não ser os que ainda vertem lágrimas pelos amores que se foram? Recordo-me de uma colega antiga, há muito não nos vemos, sei apenas por acompanhar nas redes sociais que, na epidemia que cruzou todas as fronteiras da Terra, ela foi obrigada a se despedir do pai e dois irmãos.

Ainda vejo, por vezes, ela publicar fotos lembrando do tanto de amor trocado entre eles enquanto ainda vivos, sem jamais prever o que se abateria no nosso planeta tão rico e belo, porém tão menosprezado por tantos que o degradam e, pouco a pouco, o destroem.

Hoje, no presente, novamente pela janela quarto, também pela janela do carro, como nos Esquadros de Adriana Calcanhoto, composta com a colaboração de seu irmão Cláudio Calcanhoto, vejo um cenário completamente diferente, talvez o dito “normal”, já não mais novo, apenas cotidianamente normal.

Luzes já apresentam seu brilho para nos lembrar o clima natalino instalado na cidade. A pressa retornou ao nosso convívio e os passos ligeiros se cruzam sem se perceber quem passa ao lado.

Tem aqueles que param rapidamente na doceria, sentam-se e apreciam o aprovado serviço do bairro. E quem precisa curar alguma dor, vai por instantes à farmácia logo ao lado. Os prédios, todos de pequeno porte, começam a se iluminar artificialmente, a noite está descendo para nos fazer companhia.

Contemplo a mesma natureza inspiradora desde aquela época tão marcante. Árvores a produzirem o som harmonioso da divindade, misturado ao barulho rotineiro do homem que grita “pamonha, pamonha, pamonha” (Rs!).

E não posso esquecer meus bebês pets, sempre estressadinhos. São quatro pinscher. Sim, eles são vítimas de muito preconceito, mas são nossos amores aqui em casa (volto a rir sozinha olhando para eles).

Afrouxo bem o riso! As lembranças não suprimem a alegria de ver o recomeçar, recomeçando dia após dia. Até mesmo os que choraram e se desesperaram, se mantêm de pé impulsionados pela mola propulsora que impede a letargia.

É preciso continuar, sempre, até o dia em que nós também vamos nos despedir daqui e voltar para a pátria de origem: o mundo dos Espíritos. A esperança é de reencontrar, no dia certo, sem antecipação, os que foram primeiro. Abraçá-los, sentir novamente o calor do amor que jamais é capaz de morrer. Quem sabe rir das próprias dores, na lembrança sublime de que elas ficaram para trás?

O fato é que jamais poderemos ignorar a dimensão dos ensinamentos a nós trazidos pelo Coronavírus. No entanto, não podemos viver presos a esse passado tão tenebroso. A regra é seguir em frente enchendo o peito de gratidão e cuidando do nosso planeta para nunca mais precisarmos vivenciar nada parecido com aqueles dois anos.

Por Nice Almeida

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