João Pessoa: 6 de julho de 2026

O Maior Legado de Celso Furtado

Publicado em: 6 de julho de 2026

06073232 WhatsApp I

Celso Monteiro Furtado (1920-2004) é reconhecido internacionalmente não apenas por ter sido o primeiro economista brasileiro da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), em Santiago do Chile; o primeiro superintendente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), em Recife; o primeiro ministro do Planejamento do Brasil, em Brasília; o primeiro estrangeiro a ser nomeado, por decreto presidencial do general francês Charles de Gaulle, para a cátedra de Desenvolvimento Econômico da Universidade Sorbonne, em Paris; o terceiro ministro da Cultura do Brasil, em Brasília, no Distrito Federal (DF); e o primeiro economista brasileiro a ter seu nome encaminhado ao comitê do Prêmio Nobel de Economia, em Estocolmo, no ano de 2003, um ano antes de seu falecimento, ocorrido no Rio de Janeiro, em decorrência de uma parada cardíaca, aos 84 anos de idade.

Embora essas realizações tenham sido extraordinárias, seu maior legado reside em sua vasta e influente produção intelectual. Ao longo de sua vida, Celso Furtado escreveu mais de trinta livros, constituindo uma das mais importantes obras da história do pensamento econômico em todo o mundo.

Sua produção bibliográfica teve início com o relato de sua experiência como segundo-tenente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na obra intitulada Contos da vida expedicionária: de Nápoles a Paris (1946); e estendeu-se até 2003, quando publicou seu último livro, Raízes do Subdesenvolvimento.

Ao longo de 57 anos de intensa produção intelectual, entre 1946 e 2003, o economista nordestino Celso Furtado publicou obras que se tornaram referências obrigatórias para economistas, historiadores, cientistas sociais, formuladores de políticas públicas, além de estudiosos da teoria do desenvolvimento em diversos países. Poucos intelectuais brasileiros exerceram influência tão duradoura sobre o pensamento econômico contemporâneo.

Foram mais de cinco décadas de reflexões sobre o desenvolvimento, o subdesenvolvimento, a formação econômica do Brasil e da América Latina, a dependência econômica, a industrialização e os desafios da construção de uma nação mais justa, inovadora, competitiva e próspera.

É, sobretudo, pela profundidade, originalidade e permanente atualidade de sua obra intelectual que Celso Furtado permanece como uma das maiores referências mundiais da teoria do desenvolvimento econômico, ao lado de economistas como Wassily Leontief, economista russo laureado com o Prêmio Nobel de Economia de 1973, Walt Whitman Rostow, economista norte-americano de notável contribuição teórica sobre as etapas do desenvolvimento econômico, Theodore W. Schultz, economista americano premiado com o Prêmio Nobel de Economia de 1979, e Gunnar Myrdal, economista sueco agraciado com o Prêmio Nobel de Economia de 1974.

Seus livros continuam sendo estudados em universidades do Brasil, da América Latina, da Europa, dos Estados Unidos da América (EUA) e do Canadá, demonstrando sua extraordinária capacidade de interpretar os grandes desafios enfrentados pelas economias em desenvolvimento, como o Brasil.

Na Biblioteca Pública do Estado Juarez da Gama Batista, localizada no Espaço Cultural José Lins do Rego, no bairro de Tambauzinho, em João Pessoa, já é possível encontrar dezesseis obras de Celso Furtado. Trata-se de um patrimônio intelectual de enorme valor para estudantes, professores, economistas, pesquisadores e leitores interessados em compreender a economia nordestina, brasileira, latino-americana e mundial.

As dezesseis obras de Celso Furtado disponíveis nas prateleiras da Biblioteca Pública do Estado Juarez da Gama Batista são por ordem de ano de publicação pelas editoras brasileiras: Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina (1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966); Um projeto para o Brasil (5. ed. Rio de Janeiro: Saga, 1969); Formação econômica da América Latina (2. ed. Rio de Janeiro: Lia, 1970); Análise do “modelo” brasileiro (2. ed. São Paulo: Civilização Brasileira, 1972); O mito do desenvolvimento econômico (3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974); A hegemonia dos Estados Unidos e o subdesenvolvimento da América Latina (2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975); A economia latino-americana (1. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976); A nova dependência: dívida externa e monetarismo (4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1982); O Brasil pós-“Milagre” (8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1983); Não à recessão e ao desemprego (3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983); Teoria e política do desenvolvimento econômico (2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1986, Coleção Os Economistas); A fantasia desfeita (1. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1989); O capitalismo global (1. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1998); Em busca de novo modelo: reflexões sobre a crise contemporânea (2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002); Formação econômica do Brasil (32. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2003); Desenvolvimento e subdesenvolvimento (5. ed. Rio de Janeiro: Centro Celso Furtado/Contraponto, 2009).

Nos próximos meses, esse acervo será ampliado de maneira significativa. O Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, sediado em João Pessoa, em parceria estratégica com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, com sede no Rio de Janeiro, ambos iniciaram conversas para doar e receber as demais obras do renomado economista paraibano, possibilitando a formação de uma coleção praticamente completa de sua produção intelectual.

Estamos aguardando do Centro Internacional Celso Furtado a incorporação das seguintes obras de Celso Furtado ao acervo da biblioteca pública na capital paraibana por ordem de ano de publicação: Contos da vida expedicionária: de Nápoles a Paris (1946); A economia brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento (1954); Uma economia dependente (1956); Perspectivas da economia brasileira (1958); A Operação Nordeste (1959); Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste (1959); Subdesenvolvimento e Estado democrático (1962); A pré-revolução brasileira (1962); Dialética do desenvolvimento (1964); Criatividade e dependência na civilização industrial (1978); Pequena introdução ao desenvolvimento: um enfoque interdisciplinar (1980); Cultura e desenvolvimento em época de crise (1984); A fantasia organizada (1985); Transformação e crise na economia mundial (1987); ABC da dívida externa (1989); Os ares do mundo (1991); Brasil: a construção interrompida (1992); Obra autobiográfica de Celso Furtado (1997); Seca e poder: entrevista com Celso Furtado (1998); O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil (1999); Introdução ao desenvolvimento: enfoque histórico-estrutural (2000); Economia colonial no Brasil nos séculos XVI e XVII: elementos de história econômica aplicados à análise de problemas econômicos e sociais (2001); e Raízes do subdesenvolvimento (2003). Com a provável incorporação desses 23 títulos, a Biblioteca Pública do Estado Juarez da Gama Batista na capital paraibana passará a oferecer aos leitores um dos mais completos acervos públicos da obra de Celso Furtado na Paraíba e no Brasil.

Essa iniciativa representa muito mais do que a ampliação de uma biblioteca pública. Trata-se de um investimento na formação de novas gerações de pensadores. Um estudante que conclui o ensino médio no estado da Paraíba ou um jovem que ingressa no Curso de Graduação em Ciências Econômicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) poderá ter acesso à obra praticamente completa daquele que é considerado um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, um dos principais intérpretes do Brasil.

Na biblioteca pública do Espaço Cultural José Lins do Rego ainda não podemos ler ou reler o seu primeiro livro de economia, publicado em 1954, A economia brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento, uma obra que trata sobre a teoria do subdesenvolvimento e do desenvolvimento econômico. A problemática do subdesenvolvimento econômico foi alvo de suas maiores reflexões críticas, sendo o primeiro grande trabalho de Celso Furtado voltado à construção de modelos econômicos de larga escala para explicar a evolução da economia do Brasil, na atualidade, a décima maior economia do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal.

A economia brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento (1954) constitui a matriz intelectual de Formação econômica do Brasil (1959), obra-prima de Celso Furtado e um dos maiores clássicos da literatura econômica brasileira. Traduzida para oito idiomas (inglês, francês, espanhol, italiano, romeno, polonês, japonês e mandarim), essa obra consolidou internacionalmente o método histórico-estrutural furtadiano, tornando-se uma referência indispensável para a compreensão do processo histórico de desenvolvimento brasileiro.

Cabe, portanto, indagar: como é possível que a maior biblioteca pública do estado situada na capital paraibana não disponha da coleção completa das obras do célebre economista paraibano Celso Monteiro Furtado? Como aceitar calado que seus leitores, sobretudo os jovens, sejam privados do acesso à produção intelectual do maior economista brasileiro de todos os tempos?

Ler Celso Furtado é compreender que o desenvolvimento vai muito além dos indicadores de crescimento econômico. É refletir sobre as desigualdades regionais, as disparidades sociais, a pobreza, a miséria, o desemprego, os juros elevados, a falta de educação de qualidade, a importância da cultura e o papel estratégico do planejamento estatal na construção de uma sociedade mais competitiva, próspera, inclusiva e socialmente justa.

Na biblioteca pública do Espaço Cultural José Lins do Rego, o maior romancista paraibano de todo os tempos, que nasceu na pequena, querida e histórica Pilar, ainda não podemos ler ou reler os três livros de memórias intelectuais de Celso Furtado, faltam duas obras A fantasia organizada (1985), o primeiro volume de memórias e Os ares do mundo (1991), o terceiro volume de memórias.

Vale destacar, também, que Celso Furtado estudou no Lyceu Paraibano, fundado em 1836, na capital paraibana, estudou também no Ginásio Pernambucano, em Recife, graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e obteve o doutorado em Economia pela Universidade Sorbonne (França). Além disso, lecionou em importantes instituições internacionais, como a própria Sorbonne, as universidades de Yale e de Columbia (Estados Unidos) e a Universidade de Cambridge (Reino Unido). Celso Furtado também foi o oitavo ocupante da Cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro.

Mais de duas décadas após sua morte, em 20 de novembro de 2004, no Rio de Janeiro, seu pensamento permanece extraordinariamente atual, iluminando caminhos para o Brasil e para todas as nações que ainda enfrentam o desafio histórico de superar o subdesenvolvimento no século XXI, como Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Celso Furtado continua ensinando novas gerações de economistas, gestores públicos, empresários, professores e estudantes. Poucos intelectuais brasileiros construíram uma obra tão abrangente, original, muito crítica ao atraso estrutural do Nordeste, do Brasil e da América Latina e permanentemente atual.

Nas comemorações alusivas aos 106 anos de nascimento em 26 de julho de 1920, na cidade sertaneja de Pombal, preservar e incentivar a leitura dos livros de Celso Furtado em bibliotecas públicas significa democratizar o acesso ao conhecimento e manter vivo um pensamento que permanece essencial para compreender os desafios dos nove estados da Região Nordeste, das cinco regiões da República Federativa do Brasil e dos 20 países latino-americanos.

Vale destacar também que sugiram obras póstumas de Celso Furtado, que foram organizadas pela sua inteligente, poliglota e simpática viúva, a jornalista, tradutora e escritora carioca Rosa Freire d’Aguiar, no qual destacamos: Correspondência Intelectual de Celso Furtado. 1949-2004 (Organização de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2021); Diários Intermitentes (Organização de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2019); Obra autobiográfica (Coordenação de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014); Essencial Celso Furtado (Apresentação de Rosa Freire d’Aguiar; Prefácio de Carlos Brandão. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras, 2013).

Em 11 de novembro de 2025, durantes as comemorações alusivas aos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, foi publicada uma nova obra póstuma de Celso Monteiro FurtadoO Tenente: cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial (Organização, apresentação e notas de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2025), que pretendo ler com especial interesse, não apenas por admirar a relevante trajetória do célebre economista paraibano, mas também por residir na Avenida Capitão João Freire, no bairro dos Expedicionários, e por lembrar dos meus saudosos vizinhos e ex-combatentes da FEB que guarneceram a Costa do Brasil contra ataques nazifascitas, José Alexandre Confessor (Motorista do Exército) e Mário Ferreira de Medeiros (Sargento do Exército e um dos idealizadores na construção do Monumento aos Expedicionários no município paraibano de Santa Luzia).

Mais do que um economista, um intelectual, um poliglota, um homem público de ação, um humanista, o Professor Celso Furtado deixou um legado permanente de ideias. Seus mais de 30 livros continuam dialogando com cada nova geração de leitores, permanecem extremamente relevantes para entendermos o Nordeste, o Brasil e a América Latina e reafirmam que o conhecimento é a mais poderosa ferramenta para transformar uma sociedade, é o ouro do século XXI. Esse é, sem dúvida, o seu maior legado.

 

PAULO GALVÃO JR

Tags:

Compartile:

Widget Cotação
Cotação de Moedas
Carregando...
Loterias Caixa
Loterias Caixa
Carregando resultados...