
Ela é daquelas brasileiras que não desanima. Acorda cedo, com o cantar dos galos. Ainda tem uma multidão dormindo quando ela sai de casa para cumprir o primeiro expediente do dia. De lá, segue para o segundo e, ao menos três vezes por semana, ainda encara o terceiro, só retornando ao lar já com a lua alta.
A rotina, no entanto, é repetida com gratidão. O brilho nos olhos não se apaga. É alegre, falante, extravagante sem medidas, pois pra ela não existe medida certa.
Prefere fazer amigos, não muitos, mas verdadeiros amigos. Ama cinema e boa música – especialmente as italianas. Adora a natureza e não perde a oportunidade de apreciar o mar e ver formas variadas nas nuvens, sem contar o canto dos pássaros que a impressiona pela harmonia.
Come com prazer sem se importar com os olhares julgadores. Canta alto, embora desafine muito. Tem alma livre, apesar de um corpo aprisionado.
É leve como uma brisa, algumas vezes. Em outras, forte como uma tempestade. Por vezes já foi destruidora.
Ama dançar, e dança bem! Ah, dançar a faz flutuar e traz calmaria em seu coração ansioso conduzido por uma mente acelerada. Ri alto, não tem vergonha da felicidade sentida.
Abate-lhe apenas um abismo: o oposto! A convivência com um contrário privativo da liberdade encomendada a ela como asas aladas que tentam voar.
Cresceu ouvindo a frase equivocada que os opostos se atraem. Mentiram pra ela. Os opostos, na verdade, criam abismos intransponíveis capazes de apagar a luminosidade do seu estrelado inconfundível.
Levada por esse engodo, juntou-se ao oposto, imatura e carente que era. O tempo, contudo, passou. A maturidade chegou. A busca pelo aprimorar do espírito se apresentou para lhe fazer companhia. O oposto não fez as mesmas escolhas. Decidiu estacionar. Parou no tempo, virou repetição desgastante.
Como, então, pular o abismo sem cair no vácuo do buraco negro da vida? Resposta não encontrada. Ela decide, por isso, apenas seguir. A maturidade e a literatura lhe ensinaram que quando a morte chegar para ela, a encontrará vivendo. Assim o faz, vive!
O oposto? Ah, o oposto apenas existe!
Por Nice Almeida

