
Atavismo. Na perspectiva sociológica e cultural o termo “descreve a forte tendência de indivíduos ou grupos em resgatar e retomar costumes, ideias ou estilos de vida de gerações passadas”.
Para a teoria reencarnacionista, conceito por mim seguido e acreditado, há diferenças sutis na definição da palavra.
Na ótica da Doutrina Espírita “trata-se do reaparecimento no indivíduo atual de instintos, hábitos, crenças e tendências primitivas adquiridas ou cultivadas em encarnações anteriores ou em estágios evolutivos mais rústicos da humanidade”.
Tempo atrás em uma aula sobre o Evangelho Redivivo a facilitadora foi enfática ao dizer da necessidade de nos desprendermos dos atavismos, do contrário, não estaríamos sendo espíritas de fato. Compreendi a relação feita na ocasião tendo em vista o propósito de progresso estimulado pela filosofia estudada.
É importante deixar ideias e comportamentos considerados primitivos e grosseiros para trás, e colocar itens renovadores e regeneradores na bagagem rumo à “viagem de volta para Deus”, como define Ermance Dufaux ao conceituar a reforma íntima.
A dialética Espírita é compreendida, não haverei de contestar.
Apego-me aqui, portanto, à visão sociocultural sobre atavismo na decisão tomada de resgatar costumes e estilos de vida de gerações próximas passadas. Escolho revirar memórias afetivas e seguir um caminho de revisitação de uma história revestida de amor e fé.
Meus avós, Rita e Manoel, são, sem sombra de dúvida, os maiores exemplos de pessoas praticantes desses dois sentimentos, amor e fé. Responsáveis por plantar em mim, na vida atual, a semente do Cristo, fincada inicialmente em terreno pedregoso.
Sem se importar com a terra infértil, Rita e Manoel, incansáveis, mantiveram-se bons semeadores. Suficiente era, para eles, esperar o tempo certo à transformação do terreno ser iniciada.
A ausência deles em minha vida foi gerando, finalmente, o tão sonhado recomeço motivado pelos ensinos gravados na memória. Novas práticas, outros sentimentos, e o mais importante adubo, o perdão, enfim começaram a chegar ao coração antes rebelado.
Iniciado o processo de reforma íntima, longínquo da conclusão, envolvo-me no atavismo sociocultural para percorrer uma a rodovia com destino às crenças nutridas por eles, meus avós.
Iniciei a aventura aqui pertinho mesmo, em Guarabira. Visitar o Memorial Frei Damião retornou-me à infância cheia de cuidado e afeto imensuráveis. Vó Rita, uma mulher altiva, determinada, à frente dos tempos seus, segurava meu braço com o cuidado de não me perder.
Ah, mais feliz teria sido se eu não houvesse verdadeiramente me perdido dela e sua amorável exemplificação maternal por longo tempo.
A multidão se apertava para ver aquele homem repetido nas vozes em coral como símbolo de bondade e caridade. Vó Rita e eu estávamos entre todos, e ela não se contentava em vê-lo ao longe. Saiu a levar-me, ainda pequena criatura que era eu, no aperto dos devotos.
Ela chegou lá, comigo. Pertinho de Frei Damião em sua última visita ao município de Guarabira. Tocou nele, realizou sua vontade.
Confesso, àquela época não gostei nem um pouco da atitude. Sentia-me apertada, sufocada. Realmente estava. Mas hoje, voltaria ao cenário com um sorriso no rosto e, ao invés de reclamar, abraçaria minha avó por me oportunizar viver um momento tão intenso ao seu lado.
Naquele instante eu não sabia como seria importante para minha vida estar ao lado de Dona Ritinha na empreitada de ficar ao lado de Frei Damião por um simples instante.
As lembranças foram fortes diante da imagem gigantesca . Permiti-me fechar os olhos físicos e abrir a visão espiritualmente. Olhei o alto, revivi a cena, sorri.
Independente da crença, as pessoas a quem amamos nunca morrem. Elas ficarão para sempre em nós.
Para mim, duplamente essa certeza é fortalecida na alma. Sei, creio, um dia os abraçarei novamente e, juntos, vamos rir das boas lembranças!

