
Parecia que tudo estava bem. Era só uma “cirurgia simples” para retirar a tireóide. Rapidamente ela estaria em casa e tudo continuaria como antes. Passado o procedimento cirúrgico o pedido para a biópsia e o choque do resultado me tirou do estado de anestesia em que me encontrava.
Sim, era câncer o que ela tinha. Não havia sido uma cirurgia qualquer. Os tumores, se não tivessem sido retirados a tempo, teriam tirado ela de nós. Logo ela, que antecipadamente já assume pra nós o “trono” de matriarca, a que junta, a que reúne, que organiza, que ama.
A frase do pós-conhecimento sobre a verdade dos fatos foi a clássica: “Você venceu o câncer”.
Será?
Médicos, remédios, exames. Uma constante exaustiva passou a fazer parte do “novo normal” dela. E quando não consegue, por um dia que seja, tomar as medicações – caras por sinal – seu corpo responde imediatamente. A fraqueza, as dores, a sonolência, a incapacidade de voltar a ser quem era antes.
E sabe o que é pior? O abandono emocional! Sim, porque todos olhamos para ela como se nada tivesse acontecido, como se ela realmente tivesse vencido o câncer.
Mas, não! Ela não venceu o câncer, e essa afirmação nem de longe é pessimismo. Ao contrário! É a realidade cruel que ninguém conta para as vítimas dessa doença tão avassaladora que deixa rastros que se arrastam para o resto da vida.
O câncer não foi uma escolha. Não foi descaso, nem falta de cuidados! Foi “só” o câncer, que decidiu chegar assim, como quem não quer nada, mas exige uma luta interminável e incansável, mesmo quando se está completamente cansado.
Eu também não enxerguei! É verdade! Não sei se por incapacidade humana de enxergar a dor alheia ou por pura negação.
Mas ela chorou diante de mim! Despencou! E não foi fraqueza. Foi o grito silencioso de quem me disse nas lágrimas que escorreram:
“Por favor, me enxerguem! Vejam, eu não sou de aço, não sou a mulher maravilha! Tenho dores, dissabores. Não serão os julgamentos ou as preocupações vindas dos discursos presentes e das ações ausentes que mudarão isso. Eu também preciso de ajuda. Eu também estou cansada. Eu também fiquei destruída emocionalmente e travo uma batalha injusta para continuar de pé! Não é falta de fé, é só cansaço!”.
Não! Definitivamente ela não venceu o câncer. É como se ele estivesse ali. E está! Está nas consequências duras que ele deixou. Numa rotina desmotivadora que somente mesmo alguém que quer muito continuar vivendo consegue manter.
Lembrei-me, diante daquelas lágrimas, de um vídeo que vi no Instagram de uma jovem chamada Thais Suzuki, onde ela diz que “O tratamento termina, mas a sensação de alerta, o medo da recidiva, o luto pelas mudanças físicas e a reconstrução da identidade emocional são processos contínuos que poucas pessoas preparam o paciente para enfrentar”.
Thais também conta que “é nesse novo normal que nasce uma força diferente, um olhar mais leve para a vida e uma gratidão imensa por estar aqui”.
Eu tenho medo do câncer. Ele me paralisa! Mas, não posso mais deixar esse medo me fechar os olhos para esse pós-câncer dela. Não dá mais pra fingir que ela não luta mais contra ele e isso traz muitas mudanças, muitas mesmo, em todos os sentidos.
E eu não posso mais ser aquela pessoa que acha que sabe o que é melhor pra ela. É ela quem vive cada dia esse pós-câncer, é ela quem sabe os pesos e as dores que carrega.
A mim cabe abraçá-la, compreendê-la e ajudá-la ativamente! E isso por um motivo simples:
Eu não existo em um mundo onde ela não exista!
Se você também tem alguém a quem ama infinitamente e acha que ela “venceu o câncer” te digo: olhe pra ela, enxergue ela, abrace ela, porque ela não venceu o câncer. E por mais que ele também não a tenha vencido, ele machuca, machuca de uma forma que somente quem encara ele de frente sabe explicar!
Por Nice Almeida

