
No silêncio do meu quarto escuro, o desejo de falar é sufocado pela necessidade do calar.
Vejo cenas indescritíveis nas bancarrotas urbanas das traiçoeiras noites sem luar.
É o fato incontestável da verdade censurável de quem não tem nada a ofertar.
O silêncio constante de um vazio cortante a sangrar o meu calcanhar.
Nem de Aquiles, nem de virgens, ouço a loucura a entoar as frases por mim caladas, na injustiça das minhas calçadas, traçando o meu caminhar.
Vagueio limitada nas palavras isoladas no meu cérebro a torturar.
É a visita dolorosa, não menos impiedosa, do meu leve disfarçar.
Não vejo, não ouço, não falo, sigo a pé no gargalo das lágrimas que me levam a soluçar.
Gostaria de um abraço, um carinho, um compasso para as mãos poder lhe dar.
Não reconheço o que falo, nem peso o meu cansaço de ter que seguir em frente, com minhas mãos em correntes, sem sequer poder ajudar.
Lamento, sinto e choro, descrevo mas não me mostro, porque sei que vou pagar.
Na vida de injustiças, o homem não sabe onde pisa, nem sabe se irá chegar.
Pobre homem inconsequente, pensa errar livremente, sem saber quem vai lhe cobrar.
Um dia, contudo, o véu lhe será tirado, a vergonha da verdade lhe será instado e ele apenas sofrerá
Sentirá a dor do que não fez, questionará porque não ousou ser o bem da vez, e logo irá se penalizar.
Saberá que a justiça chega mais ou menos nessa era, contando os muitos injustiçados que virão, na viagem andante, terrivelmente lhes cobrar.
Nice Almeida

