
Escrever para mim é um grande movimento terapêutico. E quando meu nobre amigo Eugênio Falcão me convidou a fazer parte do time de colunistas do Portal Notícia Extra, logo percebi a chance de impulsionar essa escritaterapia. E cá estou eu, com a proposta de trazer peculiaridades do cotidiano, pois é este o trajeto da escrita que mais me agrada.
Espero, com os meus textos, trazer certa leveza ao seu dia a dia, caro leitor, e também um tantinho de reflexão a respeito da vida nas suas formas mais singelas. Para iniciarmos nossa viagem juntos, o tema hoje é:
Eu vejo gente viva o tempo todo!
Sou daquelas pessoas que faz amizade fácil, até no ponto do ônibus. Confesso: nem sempre estou com tanta disposição para conversas aleatórias. Às vezes é a pressa, a fome já levando o estômago a reclamar, ou simplesmente as emoções nem sempre em equilíbrio.
Incrivelmente, em momentos onde são as emoções a tentar me isolar é quando mais acontece de meu simples bom dia ou boa tarde me levar a um esticado bate-papo com as mais diversas personalidades nesse ambiente literalmente passageiro.
Algo em mim torna impossível não responder àquelas questões da vida cotidiana. Uns contam histórias engraçadas, outros reclamam da demora, mas na frente há quem embarque na narrativa de fé e coragem para encarar dores, nem sempre físicas.
Essas últimas chamam muito minha atenção. Dia desses já cheguei ao ponto de ônibus tirando os fones da bolsa para ouvir uma canção repetida que a muito me encanta por falar sobre o quanto podemos espalhar esperança no mundo.
Como sempre faço, contudo, dei meu singelo boa tarde. Foi o bastante! Os fones foram logo guardados. A resposta veio de uma mulher. Ela sorriu um sorriso de coragem, como se me dissesse para nunca deixar de acreditar. Uma contradição à expressão cansada refletida no olhar. Tinha um corpo emagrecido, não sei se por natureza ou provocado pela luta diária. O suor caído no rosto revelava uma andança demorada. Voz firme e alta, me contou rapidamente sua história, sem lamúrias, só exemplos.
Disse-me estar vindo de algum lugar onde tentava providenciar um suplemento alimentar para seu companheiro em hemodiálise. A última palavra já me confidenciou quase tudo. É tratamento indicado para casos de insuficiência renal grave, onde um equipamento filtra o sangue do paciente utilizando uma máquina chamada dialisador.
Não precisou ir muito mais longe para eu entender de onde vinha a aparência de exaustão. Mesmo assim, continuei ouvindo, me pareceu uma bela oportunidade de confirmar o quanto sou privilegiada por ter saúde e estar saindo do trabalho ao invés de um hospital.
Relatou-me a dificuldade em dias do necessário procedimento que substitui a função dos rins para limpar o sangue de resíduos tóxicos e o excesso de líquidos, controlando a pressão arterial e o equilíbrio de substâncias no organismo.
Deixou claro sua preferência pela substituição da função dos rins. Melhor isso a ter de substituir a presença do seu amor por uma avassaladora solidão.
Descreveu-me a fé! “A gente acredita no poder de Jesus, mas temos de fazer nossa parte e correr atrás do tratamento, se ficar sentado esperando, é muito difícil o milagre acontecer”, colocou como se querendo me ensinar. E ensinou!
Fez aumentar minha vontade de saber mais sobre aquela pessoa simples, materialmente desprovida de recursos. Riquíssima, porém, das posses mais importantes, aquelas que ninguém tira, não há como roubar.
O ônibus dela chega. Certamente nunca mais nos encontraremos. Esquecê-la, no entanto, jamais será possível. Professora da vida, da coragem, da fé e da resignação. Nem sei seu nome, mas obrigada por cruzar meu caminho.
POR: NICE ALMEIDA

