
Em uma era marcada por estímulos visuais constantes e pela pressão estética das redes sociais, a forma como decidimos o que comprar se tornou um espelho fiel de nossos valores e aspirações. No Brasil, o universo da prática desportiva oferece um campo fértil para compreendermos essa dinâmica, revelando que a aquisição de um artigo esportivo vai muito além da necessidade funcional; é um ato de afirmação de identidade.
Recentemente, um estudo científico (que está no prelo para ser publicado) foi realizado com 188 praticantes de atividades físicas no Brasil trouxe à luz um perfil de consumidor que desafia o senso comum. Longe de ser um comprador movido pela futilidade, o brasileiro que se dedica ao esporte apresenta um nível de instrução elevado — com 66% possuindo graduação e cerca de 26% detendo títulos de pós-graduação, como mestrado ou doutorado. Este dado é fundamental para compreendermos a sofisticação de suas escolhas, geralmente concentradas em uma faixa etária de 21 a 35 anos e com uma estabilidade financeira que permite decisões mais conscientes.
O que move esse consumidor? Ao analisarmos a “compra por impulso”, descobrimos que, no contexto brasileiro, ela está intimamente ligada ao desejo de originalidade e de expressão pessoal. Diferente do que se poderia supor, o impulso aqui não é um desligamento da razão, mas uma resposta emocional ao entusiasmo e à satisfação de encontrar algo que ressoe com o seu estilo único. É a busca por diferenciação e autenticidade que guia o ato de compra, transformando o produto em um subtraço da própria personalidade do atleta.
Um dos pontos mais reflexivos da pesquisa reside na postura ética desse público frente ao chamado “consumo conspícuo” — aquele voltado para a exibição de status ou riqueza. Há uma rejeição forte e consciente à ostentação. Para o praticante brasileiro, o valor de um item não está no preço que ele aparenta ter para os outros, mas na singularidade que ele confere à sua autoimagem e, acima de tudo, na sua funcionalidade. O estudo é categórico: o principal determinante para a compra é a prática esportiva regular. Ou seja, o compromisso com a saúde e com o movimento precede o simbolismo da posse.
Essa constatação nos convida a uma pausa inspiradora. Em um mercado muitas vezes acusado de promover o supérfluo, observamos um movimento de retorno ao essencial. O consumidor brasileiro de artigos esportivos valoriza o “ser” através do “fazer”. Ele utiliza a moda e os acessórios desportivos para comunicar quem é — alguém que preza pela sua individualidade e bem-estar —, mas recusa-se a usar o consumo como ferramenta de segregação social ou demonstração de poder.
Portanto, ao calçarmos um tênis ou vestirmos uma peça tecnológica para o treino, estamos, na verdade, vestindo nossas escolhas de vida. Que possamos ser inspirados por essa busca pela autenticidade, onde o consumo serve à vida e ao esporte, e não o contrário. Afinal, a verdadeira elegância reside na coerência entre o que praticamos e como nos expressamos para o mundo.
Por Luciane Albuquerque
Luciane Albuquerque é consultora organizacional, professora universitária e pesquisadora.


