João Pessoa: 8 de julho de 2026

Enfermaria 11

Publicado em: 8 de julho de 2026

enfermaria 11

Cruzar as portas de entrada do Hospital Napoleão Laureano, referência no tratamento de câncer na Paraíba, não representava nenhuma novidade para mim. Segui o protocolo, me dirigi até o setor de Serviço Social, identifiquei-me e também a paciente a quem gostaria de visitar. Autorização concedida, apertei o botão do primeiro andar no elevador, enquanto o corpo reagia com arrepios condutores de uma prece sentida.

As portas do equipamento elevatório abriram indicando-me um longo corredor a me levar até a enfermaria 11, onde encontraria a figura feminina, sinônimo de luta e finalidade de minha invisível e minúscula presença no local, para lhe dar um abraço, certamente de despedida pelas informações a mim chegadas.

Fui devagar! Era como se algo me dissesse para não ter pressa. Ali, o tempo não é contado nos ponteiros de um relógio comum apresentado pelos instrumentos materiais conservados na Terra e revelados inúteis diante da enfermidade a corroer o mecanismo carnal a nos dá permissão para visitarmos esse planeta de provas e expiações explicáveis pela crença por mim adotada, o Espiritismo.

Respirei fundo! Cheguei à tal enfermaria 11, prontamente organizada para receber dois pacientes no espaço. Na porta fui surpreendida com uma voz entorpecida pelas lágrimas a declararem amor eterno a alma do seio materno já separada do corpo.

A despedida havia acontecido! Eu não cheguei a tempo! O abraço era o único movimento possível naquele instante de dor. Nenhuma palavra seria melhor ou maior que aquele gesto para uma filha em separação da mãe amada e tão bem cuidada, com tanta dedicação e zelo.

A filha estava ali ao lado dela desde o primeiro minuto. E já haviam se passado três meses. Noventa dias sem sair daqueles corredores. UTI, enfermaria, noites insones, cirurgias, dor. Ela não arredou pé. Diante de mim a maior prova de amor concedida àquela mãe que acabara de cerrar os olhos, por fim.

E de novo a sequência de protocolos necessários e humanos adotados para o momento. Confirmação do óbito pelos profissionais sensibilizados por mais uma ‘perda’. A filha foi então conduzida para uma conversa com o setor da psicologia e para entender o que deveria ser feito dali por diante.

No diálogo, a maturidade de quem amou ao extremo e se negava a desejar manter vivo o corpo sofrido do seu maior amor, sua mãe. Compreendeu o desapego para primar pela felicidade da alma materna indubitavelmente liberta agora.

Terminados os protocolos, novo abraço, caminhos distintos a partir de agora. Ela seguiu para a maior despedida de sua vida. Eu segui para a normalidade de uma rotina que não me impede de refletir sobre como tudo aqui é tão passageiro, e como aprender a amar é nossa maior missão aqui na Terra.

Amemos!

Por Nice Almeida

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