João Pessoa: 14 de julho de 2026

Veterinários do Centro de Zoonoses atuam com a consciência do cuidado integral de animais e humanos

Publicado em: 11 de setembro de 2025

veterinarios do centro de zoonoses atuam com a consciencia do cuidado integral de animais e humanos

“A medicina vai curar o homem. A medicina veterinária vai curar a humanidade!”. Em uma única frase, a explosão de emoções de um ser humano que, ao que nos parece, já nasceu com a compreensão de que o mundo um dia só será perfeito quando a humanidade aprender a amar de verdade os animais e o meio ambiente. Alick Farias, médica-veterinária com atuação no Centro de Vigilância Ambiental e Zoonoses de João Pessoa, revela-se, na reprodução da citação acima, um ser emocional conhecedor da impossibilidade de pensar o equilíbrio entre todos os seres fora do contexto da Saúde Única, onde o cuidado integral com humanos, animais e meio ambiente não pode ser dissociado.

“A missão do médico-veterinário e da médica-veterinária é muito mais ampla. A gente está lidando com a vida humana, com a vida animal e com o meio ambiente. E essa parte da Saúde Única que a gente trabalha é muito importante na sociedade. Nós somos parte de um meio ambiente, devemos cuidar da preservação de tudo, da fauna, da flora, não temos como viver separados disso”, realça Alick Farias.

veterinarios do centro de zoonoses atuam com a consciencia do cuidado integral de animais e humanos 1

Saúde Única – Alguns podem nunca ter ouvido essa expressão. Outros, talvez a tenham escutado, mas ainda não sabem bem do que se trata. O Ministério da Saúde define Saúde Única – também conhecida como One Health – como um sistema que reúne saúde das pessoas, dos animais e do meio ambiente.

Em outras palavras, a Saúde Única é uma abordagem que considera como humanos e animais interagem ecologicamente em um ambiente, onde qualquer alteração nestas relações provocará desequilíbrios e, consequentemente, a propagação de doenças. Humano, animal e ambiente compartilham os mesmos ecossistemas e, portanto, os mesmos riscos e benefícios à saúde.

Em resumo: Saúde Única é a consciência de que a vida é um tecido entrelaçado. Se um fio se rompe — seja humano, animal ou ambiental — toda a teia se fragiliza.

Um olhar sobre a Saúde Única – Alick não está sozinha nesse panorama onde a necessidade do fortalecimento da Saúde Única é urgente. No Centro de Vigilância Ambiental e Zoonoses de João Pessoa, mantido pela Prefeitura Municipal de João Pessoa, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), ela convive com vários profissionais integrantes de uma equipe coordenada pela gerente de Vigilância Ambiental e Zoonoses, Pollyana Dantas.

Do grupo, fazem parte também os médicos-veterinários Kalliny Feliciano e Lucas de Oliveira. Juntos, eles têm transformado a forma como todos – profissionais e sociedade – enxergam o Centro de Zoonoses, ambiente que já deixou, há tempos, de ser um local onde, para proteger o humano, o animal era sacrificado.

veterinarios do centro de zoonoses atuam com a consciencia do cuidado integral de animais e humanos 2

Lá, o maior objetivo é promover a vida como um todo e, assim, fazer os bichinhos voltarem a conviver com os humanos em harmonia. Na visão deles, um cuidado que supera a Saúde Única, porque trata-se mesmo é de amor. “A função do Centro de Zoonoses é evitar a disseminação de doenças zoonóticas, no sentido de alertar a população como prevenir. É sempre melhor trabalhar a prevenção do que depois propriamente a doença. Mas, quando ocorre a doença, nada impede que haja um tratamento adequado, coerente, que eleve a imunidade do animal, que faça com que esse animal tenha uma perspectiva maior de vida, sem colocar os demais animais e a população em risco”, informa Pollyana Dantas.

Para a gerente, fazer com que os bichinhos sobrevivam é a palavra de ordem por lá. “Hoje só se concebe eutanásia quando é um caso irreversível, quando o animal realmente está em sofrimento profundo e não há um tratamento para isso, não existe mais uma perspectiva de se tratar. A gente faz isso por amor, porque sabe que ele vai se reabilitar. Fazemos tudo da forma mais coerente, da melhor forma possível para o animal e para os tutores, que vão cuidar depois”, acrescentou.

Vida em equilíbrio – Um exemplo prático do que tem acontecido no Centro de Zoonoses de João Pessoa é o caso de Diana, uma pitbull linda e muito dócil que está no local há seis meses. Quando a cadelinha cruzou as portas do “hospital do amor” [assim minha emoção passou a entender o Centro de Zoonoses], estava completamente debilitada.

Diana adoeceu muito e poderia ter se tornado um vetor de transmissão para a população. No entanto, a cadelinha teve seu destino transformado. O que mudou na vida de Diana que a fez sobreviver e hoje estar pronta para conseguir uma adoção responsável em um lar onde será feliz e fará os humanos felizes? O conceito humanizado do grupo que atua no órgão público da Capital paraibana.

Para os médicos-veterinários do Centro de Vigilância Ambiental e Zoonoses, a vida só acaba no último suspiro. A luta deles é para que a vida continue, porque enquanto há vida, há esperança. E, sim, é preciso repetir a palavra vida muitas vezes, pois quando Alick, Kalliny, Lucas e Pollyana vêm chegar ali um novo animal, é somente nisso que eles apostam, na vida.

“A gente sabe que nem sempre vence todas as batalhas. Mas, a gente tenta, dá o nosso máximo para reabilitar todos os animais. E quando não conseguimos, realmente ficamos muito tristes com a situação”, desabafou Lucas Gomes com ar de quem não desiste fácil dessas vidas e empreende todos os esforços para a recuperação de cada um dos bichinhos que ficam aos seus cuidados.

veterinarios do centro de zoonoses atuam com a consciencia do cuidado integral de animais e humanos 3

Abandono: fator de desequilíbrio e desumanidade – É com essa triste realidade que todos os dias os profissionais do Centro de Zoonoses de João Pessoa se deparam. Dos mais de 500 animais atendidos mensalmente, pelo órgão público – entre os serviços ambulatoriais, de cirurgia, vacinação e Castramóvel – a grande maioria é vítima de abandono.

“A maioria dos animais que entra aqui vem proveniente de demandas judiciais. São casos de maus-tratos, casos em que o tutor faleceu e não tem nenhum familiar próximo para ficar com o animal, situações de acumuladores e os que vivem nas ruas porque têm uma determinada doença zoonótica e precisa ser retirada do convívio com outros animais. A gente traz eles, faz testagem, todos os exames necessários, laboratoriais, teste de lâmina para esporotricose, reabilita o animal para que ele possa ganhar um novo lar”, pontuou Pollyana Dantas.

A negligência de alguns humanos com os animais é uma verdade que se choca ao sentimento doce e amoroso demonstrado nos gestos e palavras dos profissionais com quem conversamos. O descaso de uns revela que ainda vivemos em um estágio de crueldade em que se abandonam animais doentes para esperarem a morte sozinhos, com fome e sede.  Para a sorte de muitos deles – não os seres humanos, e sim os bichos – João Pessoa tem uma rede de amparo animal que resgata vidas.

Na roda que faz girar esse descaso, o desequilíbrio no ecossistema, do qual fazem parte – como já dito – homem, animal e meio ambiente. Em situação de abandono, os animais vão procriar de forma desordenada, transmitir doenças uns aos outros e espalhar enfermidades entre os humanos, inclusive os que os desampararam – entre elas a esporotricose e a leishmaniose.

A esporotricose, que por sinal é curável, é uma micose causada por um fungo (Sporothrix) que afeta humanos e animais, principalmente gatos, sendo transmitida por meio de lesões na pele. A transmissão ocorre por contato com material vegetal e solo contaminados ou por contato com animais doentes, e é essencial procurar um médico ou veterinário para diagnóstico e tratamento.

A leishmaniose é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Leishmania. Ela é transmitida aos seres humanos e outros animais por meio da picada de insetos infectados, conhecidos como flebotomíneos ou mosquitos-palha.

Coração humano – Alguns especialistas em jornalismo defendem a tese de que o autor da reportagem não deve reportar o texto na primeira pessoa. Há quem acredite que o jornalista tem apenas que descrever os cenários e personagens sem se envolver na matéria. Perdoem-me! Não consigo alimentar essa crença. Por isso, assumo o texto em primeira pessoa, me permitam.

Quando olhei nos olhos dos profissionais entrevistados e eles me falaram sobre abandono, senti o aperto no coração de cada um. A tristeza era nítida por conviver com essa realidade tão funesta. E foi Kalliny Feliciano quem definiu essa atitude. Ela falou sobre a falta de vínculos, e a sua expressão revelava a angústia de saber que há tutores que não os estabelecem.

veterinarios do centro de zoonoses atuam com a consciencia do cuidado integral de animais e humanos 4

“O abandono, ele se caracteriza por falta de vínculo, na verdade. Porque a partir do momento que você tem vínculo com o animal, você respeita e ama aquele animal, você nunca vai abandonar. Só vai planejar a sua vida de acordo com o que caiba naquele animal. A partir do momento que você abandona aquele animal, é porque há um desvio de caráter e porque você não tem vínculo”, alerta Kalliny.

Mas, o reino animal não é feito apenas de abandonos. Isso fica bem claro nas falas de Alick, Kalliny, Lucas e Pollyana. Em meio a todo esse assunto, lágrimas verteram dos olhos da gerente de Vigilância Ambiental e Zoonoses ao narrar e acolher com exaltação os avanços conquistados no Centro Municipal de Zoonoses, um sentimento sincero e contrário a negligência.

Pollyana é só amor pelos animaizinhos. Por isso, ela celebra cada investimento, cada melhoria, cada nova fase que amplia o cuidado com a causa animal no sentido macro, porque, como dissemos em todo o transcorrer deste trabalho, isso significa cuidar do humano e do ambiental.

Missão, veterinário – Para quem está na fase de sonhar em se tornar médico-veterinário é importante saber que não basta conhecer a técnica de cuidar dos animais e entender o sistema de Saúde Única. É preciso muito mais para desempenhar a vocação que alicerça a construção do tripé que a compõe, como ressalta Kalliny Feliciano.

“É preciso ter amor, caráter é ética. A técnica a gente consegue aprimorar, consegue moldar a pessoa com a técnica. Agora, se não tem amor pelo que faz, não tem ética, caráter, você vai ser um profissional muito raso, não vai ser um bom profissional”, declarou Kalliny, que recebeu a aprovação das palavras por Alick e Lucas.

Amor, caráter e ética. No Centro de Vigilância Ambiental e Zoonoses da Capital eu testemunhei tudo isso exalar pelos poros de Alick, Kalliny, Lucas e Pollyana, porta-vozes de todos que carregam no coração a dádiva de agir como eles, como um super-herói ou super heroína do mundo animal/humano. E, como disse Alick, lá no comecinho da nossa reportagem, heróis e heroínas de toda a humanidade.

veterinarios do centro de zoonoses atuam com a consciencia do cuidado integral de animais e humanos 5

Texto: Nice Almeida

Fotos: Robério Gadelha

Tags:

Compartile:

Widget Cotação
Cotação de Moedas
Carregando...
Loterias Caixa
Loterias Caixa
Carregando resultados...