
De um grupo de jovens que jogava futebol pelos terrenos de João Pessoa a um clube campeão brasileiro e dono de uma das maiores torcidas da Paraíba. O Botafogo-PB completa 95 anos nesta segunda-feira (28) carregando uma história que atravessou diferentes gerações da capital paraibana e chega ao aniversário novamente envolvido na disputa por um lugar na Série B do Campeonato Brasileiro.
Fundado em 28 de setembro de 1931, o Alvinegro da Estrela Vermelha chega à data meses depois de conquistar o Campeonato Paraibano de 2026 e em plena fase decisiva da Série C. O clube terminou a primeira fase da competição nacional na liderança, mas encontrou dificuldades no quadrangular do acesso, que ainda ocupa o calendário botafoguense neste aniversário.
A combinação entre passado e presente ajuda a resumir boa parte da trajetória do Belo. Aos 95 anos, o Botafogo continua perseguindo um objetivo que se tornou recorrente nas últimas temporadas: retornar à Série B, divisão nacional que o clube não disputa desde 1989.
Uma casa, alguns estudantes e um novo clube em João Pessoa
A história começou em uma João Pessoa muito diferente da atual.
A capital havia recebido esse nome apenas no ano anterior, após deixar de se chamar Parahyba. Foi nesse ambiente que um grupo de adolescentes e jovens que costumava jogar futebol começou a discutir a formação de uma equipe própria.
Em 28 de setembro de 1931, eles se reuniram em uma casa de número 45 da antiga Rua Borges da Fonseca, via que hoje integra a Avenida Dom Pedro II, próximo à Rua 13 de Maio.
Daquele encontro surgiu o Botafogo Futebol Clube.
Beraldo de Oliveira foi escolhido como primeiro presidente. A diretoria inicial tinha ainda Manoel Feitosa, conhecido como Nezinho, como vice-presidente; Livonete Pessoa e José de Melo nas secretarias; Edson de Moura Machado na tesouraria; e Enock Lins como orador.
O primeiro amistoso terminou com vitória por 1 a 0 sobre o Triunfo, no Campo do América. Pouco depois, o novo clube começou a disputar torneios locais e ampliar sua presença no futebol da cidade.
Botafogo nem sempre foi escrito assim
Até o próprio nome carrega uma história menos óbvia do que parece.
Pesquisas em jornais da época mostram que os primeiros registros apresentavam a grafia “Bota-Fogo”, com hífen. Uma das interpretações históricas associa a escolha a funcionários do jornal A União envolvidos em uma greve naquele período.
Nesse relato, a expressão teria o sentido literal de “botar fogo”, de provocar e protestar, e não simplesmente reproduzir o nome do Botafogo do Rio de Janeiro.
A aproximação visual com o clube carioca viria posteriormente, com a adoção das cores alvinegras e de elementos semelhantes no escudo.
Décadas depois, porém, o time paraibano já havia construído uma identidade própria.
E de onde veio o “Belo”?
O apelido que hoje praticamente substitui o próprio nome do clube entre torcedores teria surgido por volta de 1957.
Segundo relato do historiador e conselheiro Raimundo Nóbrega, o então presidente Antônio de Abreu e Lima teria se empolgado durante uma partida e comemorado uma jogada dizendo que aquilo era uma “coisa bela”.
Pessoas próximas começaram a repetir “Belo, Belo, Belo”, e o grito acabou incorporado pela torcida.
Nascia uma das marcas mais reconhecidas do futebol paraibano.
Primeiro estadual veio em 1936
O crescimento esportivo foi rápido.
Depois de integrar competições suburbanas e se filiar à Liga Desportiva Paraibana, o Botafogo terminou como vice-campeão estadual em 1935.
No ano seguinte, conquistou pela primeira vez o Campeonato Paraibano. O título de 1936 abriu uma sequência: o Belo voltou a vencer em 1937 e 1938, formando seu primeiro tricampeonato estadual.
Nove décadas depois, o clube permanece no topo da lista de conquistas estaduais.
Em março deste ano, o Botafogo empatou em 0 a 0 com o Sousa no Almeidão depois de vencer o primeiro jogo da final por 2 a 1 e conquistou o Campeonato Paraibano de 2026. Para a Federação Paraibana de Futebol, foi a 31ª taça estadual do Belo.
O clube, entretanto, contabiliza 32. A divergência envolve o campeonato de 2002: a FPF reconhece o Atlético de Cajazeiras como campeão, enquanto o Botafogo considera que uma decisão posterior relacionada à utilização irregular de jogador modificaria o resultado daquela edição.
O Almeidão virou parte dessa história
Inaugurado em 1975, o Estádio José Américo de Almeida Filho, o Almeidão, tornou-se palco de algumas das noites e tardes mais importantes da trajetória alvinegra.
Foi ali que diferentes gerações acompanharam títulos estaduais, partidas nacionais, acessos e eliminações.
Também foi no estádio que o Botafogo recebeu alguns dos grandes clubes e personagens do futebol brasileiro.
Um desses episódios aconteceu ainda em 1969, antes mesmo da inauguração do atual Almeidão, quando o Belo enfrentou o Santos de Pelé em João Pessoa. A passagem do Rei do Futebol pela capital paraibana tornou-se objeto de uma controvérsia histórica sobre a contagem de seus gols.
Outra página veio em 6 de março de 1980.
Naquele dia, o Botafogo entrou no Maracanã diante de um Flamengo que reunia nomes como Zico, Júnior, Adílio e Andrade e venceu por 2 a 1.
Na rodada seguinte, derrotou também por 2 a 1 o Internacional, então tricampeão brasileiro, no Almeidão. A sequência ajudou aquela geração a ganhar a fama de “matadora de tricampeões”.
2013 mudou a história do Belo
Nenhum ano, entretanto, ocupa tanto espaço na memória recente do Botafogo-PB quanto 2013.
A temporada começou com uma missão: encerrar um jejum de dez anos sem conquistar o Campeonato Paraibano.
O Belo conseguiu. Na final, derrotou o Treze por 3 a 0 no Amigão, em Campina Grande, e voltou a levantar a taça estadual.
Mas o que viria depois transformaria aquela equipe em uma das mais lembradas da história do clube.
Na Série D do Campeonato Brasileiro, o Botafogo avançou pela fase de grupos e eliminou Central, Tiradentes e Salgueiro no mata-mata.
A classificação contra o Tiradentes, nas quartas de final, também garantiu o acesso à Série C.
Restava a disputa pelo título.
O dia em que o Almeidão viu o Belo campeão brasileiro
A final colocou Botafogo-PB e Juventude frente a frente.
No primeiro jogo, em Porto Alegre, o time gaúcho venceu por 2 a 1.
A decisão ficou para 3 de novembro de 2013, em João Pessoa.
Diante de quase 20 mil pagantes no Almeidão, Mário Larramendi abriu o placar de cabeça no primeiro tempo. Já nos acréscimos da segunda etapa, Rafael Aidar marcou o segundo.
Botafogo-PB 2 x 0 Juventude.
O clube conquistava a Série D e se tornava o primeiro time paraibano a levantar um título brasileiro homologado pela CBF.
A estrela dourada que passou a aparecer acima do escudo do Belo representa justamente aquela conquista.
Desde então, o Botafogo permanece na Série C.
Noventa e cinco anos depois, acesso continua no horizonte
A temporada do aniversário começou com a volta do clube ao topo do futebol estadual.
O título do Campeonato Paraibano encerrou um período de seis anos sem conquistar a competição.
Na Série C, o time viveu momentos distintos.
Depois de atravessar uma sequência de seis derrotas, reagiu e estabeleceu sua maior invencibilidade na história da competição: foram 11 partidas sem perder até o encerramento da primeira fase.
A vitória por 2 a 0 sobre o Itabaiana, fora de casa, garantiu ao Belo a liderança da etapa classificatória, com 33 pontos.
O rendimento caiu justamente no quadrangular que decide o acesso. O Botafogo perdeu as três primeiras partidas dessa fase e chegou ao confronto deste sábado (26) contra o Maringá ainda em busca de uma reação.
Independentemente do cenário que o clube encontre ao completar 95 anos, a Série B continua sendo uma fronteira histórica para o Botafogo. A última participação ocorreu em 1989.
Entre a pequena casa onde Beraldo de Oliveira e os amigos fundaram um time em 1931, as arquibancadas do Almeidão e a estrela conquistada em 2013, passaram-se nove décadas e meia.
O Botafogo que nasceu das peladas de jovens pessoenses chega aos 95 anos ainda ocupando um lugar que ultrapassa as quatro linhas: o de uma das instituições esportivas que acompanharam a transformação de João Pessoa ao longo de quase um século.
TH+



